PJ que terá desviado 200 mil euros de cofre milionário de mansão da Quinta da Marinha em silêncio
Por CASCAIS24
A tentação foi mais forte do que o cumprimento do dever para o inspetor da brigada Anticorrupção da PJ Emanuel
Sérgio Pacheco Briosa, 40 anos, que começou esta segunda-feira a ser julgado no Tribunal de
Cascais acusado de, no decurso da operação “Rota do Atlântico” ter,
alegadamente, furtado 200 mil euros que faziam parte dos 6,9 milhões de euros
confiscados em dois cofres na mansão da Quinta da Marinha, em Cascais, então alvo
de buscas policiais.
Louvado em 2009 pelo então ministro da Justiça e atual primeiro-ministro
António Costa, “pela persistência, excecional desempenho, dinamismo,
organização e eficácia demonstradas no decurso de uma investigação de um caso
complexo de cariz económico”, o inspetor manteve-se em silêncio nesta primeira sessão perante o coletivo, afirmando que falará "no momento próprio".
Detido no Estabelecimento Prisional de Évora depois de, no ano passado, ter visto o super juiz Carlos Alexandre decretar a prisão preventiva, Emanuel Briosa é um antigo agente da PSP, que foi admitido na PJ
em 2004, na sequência de um concurso extraordinário. Encontrava-se destacado numa brigada que investiga contrabando de tabaco e
bebidas alcoólicas, mas participava habitualmente em outras operações lançadas
pela unidade anticorrupção.
Em princípios do ano passado, participou na operação “Rota do Atlântico” e foi um dos três
inspetores destacados para as buscas à mansão da rua dos Sobreiros da Marinha,
na Quinta da Marinha, alegadamente usada por Gilbert Ondongo, ministro de
Estado, das Finanças e da Economia do governo da república do Congo
Brazzaville.
Foi nesta casa, o lote 22, que foram encontrados dois cofres blindados,
no interior dos quais estavam 6,9 milhões de euros, em notas devidamente
cintadas, pelo Banco Central Italiano. A chave da mansão estaria na posse de
Paulo Santana Lopes, irmão do antigo Primeiro-ministro José Santana Lopes e
atualmente Provedor da Santa Casa da Misericórdia.
O
inspetor da PJ terá desviado um único maço de mil notas de 200 euros e um dos dois colegas que testemunharam no
julgamento, garantiu ao coletivo do Juízo Criminal 2, que o colega ficou “dois
a três minutos sozinho”. Na altura, os dois inspetores ficaram a acondicionar num
saco as notas de dólares, enquanto Emanuel Briosa pegou num outro onde tinham
sido colocados os maços de euros e levou-o para uma sala no rés-do-chão. Segundo
a acusação, Emanuel Briosa levou logo o dinheiro para o veículo, escondendo o
maço de notas dentro de uma mochila, que estava na bagageira.
Segundo o Ministério Público, Briosa gastou parte dos 200 mil euros “em
diversas despesas em bens e serviços de diversa natureza", incompatíveis
com o seu padrão de vida”. Tinha problemas financeiros e desde 2013
que tinha em curso “processos de execução que vieram a dar origem a penhoras de
parte do seu vencimento, uma delas uma dívida de quase 6900 euros. Tinha ainda
uma outra de mais de 14 mil euros a um banco e de 540 euros à Autoridade
Tributária. Para além disso, em escassos cinco meses “alterou o seu estilo de
vida, designadamente com deslocações frequentes a restaurantes, estadias em
hotéis e viagens". A acusação refere que também que pagou facturas de água
e eletricidade. Uma outra diz respeito ao pagamento parcial do trespasse de um
restaurante. "Gastou, pelo menos, 20 mil euros como parte do preço do
trespasse do estabelecimento comercial O Rei dos Petiscos, situado em Santa
Marta do Pinhal, Corroios, que explorou em conjunto com a mulher a partir de
Julho de 2016", diz o Ministério Público.
O advogado de Emanuel Briosa, António Andrade de
Matos, recusou-se a prestar declarações no final desta primeira audiência de
julgamento, que continua no próximo dia 24, pelas 9h15 no Tribunal de Cascais.
Na operação “Rota do Atlântico” são arguidos o ex-empresário de futebol
José Veiga, Paulo Santana Lopes, a advogada Maria Luísa Barbosa, curiosamente
administradora da sociedade Westside Worldwide, SA, que terá adquirido por 4,5
milhões a mansão da Quinta da Marinha, e ainda Manuel Damásio - o antigo
presidente do SLB Manuel Damásio e o homem por detrás do novíssimo e luxuoso
Hotel Intercontinental (antigo hotel Atlântico) no Monte Estoril, inaugurado em
Dezembro de 2015.
Posteriormente, surgiu outro arguido, um cidadão brasileiro, diretor
financeiro da Asperbras, empresa da qual José Veiga é o diretor-geral na filial
do Congo. Foi apanhado em Buenos Aires, na Argentina, na sequência de um
mandado de detenção internacional a pedido da Polícia Judiciária, através da
Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC).
De resto, no âmbito da operação “Rota do Atlântico”, os inspetores da PJ
apontaram como alvo o Hotel Intercontinental do Estoril, cuja aquisição por
parte de Veiga pode ter servido como forma de lavar os cerca de 500 milhões que
circularam pelas contas do antigo empresário de Luís Figo nos últimos cinco
anos. A suíte do próprio Manuel Damásio no “Intercontinental” foi, na altura,
alvo de buscas judicialmente autorizadas.
|
|


Comentários
Enviar um comentário