Inspetor da PJ louvado por António Costa preso por "assalto" a cofre milionário na Quinta da Marinha

Por Valdemar Pinheiro

06.08.2016

Louvado em 2009, juntamente com outros colegas, pelo então ministro da Justiça e atual primeiro-ministro António Costa, “pela persistência, excecional desempenho, dinamismo, organização e eficácia demonstradas no decurso de uma investigação de um caso complexo de cariz económico”, o inspetor da brigada Anticorrupção da PJ Emanuel Sérgio Briosa encontra-se atualmente detido na cadeia de Évora, por suspeita de, no decurso da operação “Rota do Atlântico” ter, alegadamente, furtado 200 mil euros que faziam parte dos 6,9 milhões de euros confiscados em dois cofres na mansão da Quinta da Marinha, em Cascais, alvo então de buscas policiais. 

Antigo agente da PSP e admitido na PJ em 2004, na sequência de um concurso extraordinário, Emanuel Briosa encontrava-se destacado numa brigada que investiga contrabando de tabaco e bebidas alcoólicas, mas participava habitualmente em outras operações lançadas pela unidade anticorrupção.

Gilbert Ondongo
Participou na operação “Rota do Atlântico” e foi um dos inspetores destacados para as buscas à mansão da rua dos Sobreiros da Marinha, na Quinta da Marinha, alegadamente usada por Gilbert Ondongo, ministro de Estado, das Finanças e da Economia do governo da república do Congo Brazzaville.

Foi nesta casa, o lote 22, que foram encontrados dois cofres blindados, no interior dos quais estavam 6,9 milhões de euros, em notas devidamente cintadas, pelo Banco Central Italiano. A chave da mansão estaria na posse de Paulo Santana Lopes, irmão do antigo Primeiro-ministro José Santana Lopes e atualmente Provedor da Santa Casa da Misericórdia.

O inspetor da PJ terá sido visto por um colega a “desviar” um maço de 400 notas de 500 euros, mas há suspeitas de que Emanuel Briosa, que está com problemas financeiros e, inclusivamente, tinha parte do vencimento congelado, pode ter feito desvios de outros montantes em outras operações em que participou.

Detido pelos próprios colegas da PJ, o inspetor acabou por ver confirmada a prisão preventiva pelo super-juiz Carlos Alexandre e aguarda agora no Estabelecimento Prisional de Évora o desenrolar do inquérito.

José Veiga
Na operação “Rota do Atlântico” são arguidos o ex-empresário de futebol José Veiga, Paulo Santana Lopes, a advogada Maria Luísa Barbosa, curiosamente administradora da sociedade Westside Worldwide, SA, que terá adquirido por 4,5 milhões a mansão da Quinta da Marinha, e ainda Manuel Damásio - o antigo presidente do SLB Manuel Damásio e o homem por detrás do novíssimo e luxuoso Hotel Intercontinental (antigo hotel Atlântico) no Monte Estoril, inaugurado em Dezembro último pelo presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras, no âmbito das suas competências.

Mais recentemente, surgiu outro arguido: um cidadão brasileiro, diretor financeiro da Asperbras, empresa da qual José Veiga é o diretor-geral na filial do Congo. Foi apanhado em Buenos Aires, na Argentina, na sequência de um mandado de detenção internacional a pedido da Polícia Judiciária, através da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC).

De resto, no âmbito da operação “Rota do Atlântico”, os inspetores da PJ apontaram como alvo o Hotel Intercontinental do Estoril, cuja aquisição por parte de Veiga pode ter servido como forma de lavar os cerca de 500 milhões que circularam pelas contas do antigo empresário de Luís Figo nos últimos cinco anos. A suíte do próprio Manuel Damásio no “Intercontinental” foi, na altura, alvo de buscas judicialmente autorizadas. 



Branqueamento de capitais, tráfico de influências, participação económica em negócio e fraude fiscal, constituem, para já, os crimes em causa na complexa investigação em que José Veiga surge como principal arguido.

Em causa estão negócios no Congo cujos lucros seriam aplicados na compra de vários bens em Portugal, sobretudo na Costa do Estoril.

Veiga geria os investimentos do Presidente da República do Congo, Denis Sassou Nguesso e os proventos destas atividades eram, diz a PJ, utilizados na aquisição de imóveis, veículos de gama alta e sociedades, “utilizando para o efeito pessoas com conhecimentos especiais e colocadas em lugares privilegiados, ocultando a origem do dinheiro e integrando-o na atividade económica lícita.”

Suspeita-se, ainda, que os milhões confiscados nos dois cofres da mansão da Quinta da Marinha entraram em Portugal através do Aeródromo Municipal de Cascais, em Tires, que era utilizado frequentemente por José Veiga e acólitos nas suas viagens internacionais em jatos.

Provenientes do Congo, os milhões terão chegado a Tires em malas, em viagens que a PJ e o próprio SEF monitorizavam desde há dois anos.



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