ESCÂNDALO NO JAMOR: Vice-presidente do Instituto Português do Desporto e Juventude pode vir a ser constituído arguido

Por Valdemar Pinheiro

24.02.2017

O atual vice-presidente do Instituto Português de Desporto e Juventude, Vítor Pataco, pode vir a ser constituído arguido pelo Ministério Público (MP), que investiga o alegado abuso sexual, agressão e bulling de que terá sido vítima por parte de colegas um menor, de 15 anos, enquanto interno no Centro de Alto Rendimento do Jamor, onde ingressou  depois de, em agosto de 2015, ter-se distinguido em Carcavelos num Campeonato Nacional da modalidade que pratica, apurou Cascais24. 

A notícia do alegado abuso, agressão e bulling foi avançada esta quinta-feira, em primeira mão, pelo JN que fez manchete do escândalo, que responsáveis por aquele centro terão alegadamente procurado silenciar.

É neste contexto, soube C24, que o então responsável pelo CAR, Vítor Pataco, pode vir a ser constituído arguido no inquérito do Ministério Público, “caso venha a ser provado que teve conhecimento dos factos e não os denunciou às autoridades competentes”.

De resto, o nome de Vítor Pataco, nomeado pelo despacho n.º 8188/2016, de 27 de maio, pelo Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, e publicado em Diário da República a 23 de junho, surge numa denúncia anónima enviada à Procuradoria-Geral da República como sendo responsável pelo CAR à altura dos alegados factos sob investigação.

“Estranha-se que este senhor, pessoa de resto com algum prestígio no meio desportivo, não tivesse conhecimento do que estava a acontecer. Se era, como era, o responsável pelo CAR, tinha por obrigação de saber e, assim sendo, de participar às autoridades competentes”, declarou, a C24, fonte próxima dos inquéritos em curso. 

De acordo com a mesma fonte, “não é lícito procurar agora branquear-se um comportamento que, a confirmar-se, é indigno pela alegada gravidade dos casos então presumivelmente ocorridos, negligenciados e omitidos”.

“É que, explicou, a fazê-lo podia ter colocado em causa a sua posterior nomeação para vice-presidente do IPDJ”.

Pesadelo

O convite ao menor foi feito pelo treinador e a sua posterior entrada no CAR com os apoios da associação e respetiva federação da modalidade.

Segundo o pai do jovem, “o convite foi uma honra para a família”, pois “ele começou a praticar a modalidade desde muito cedo, com menos de 5 anos e sempre sonhou com uma oportunidade destas”.

A verdade é que, a oportunidade surgiu, mas a passagem do jovem pelo CAR veio a revelar-se um “pesadelo”, com os pais a quilómetros de distância a pensar que o filho estava seguro e protegido.

Oriundo do distrito de Aveiro, o menor terá sido abusado enquanto dormia na Residência do Centro de Alto Rendimento. 

“Estando o meu filho a dormir, atletas do CAR, ao chegarem da escola e aproveitando o seu sono pesado introduziram os órgãos genitais na boca”, denunciou o pai do menor, segundo o qual também “um dia ao recusar sair à noite, os demais bateram no meu filho”.

E, este pai, na sequência da denúncia que fez à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens, fala ainda na colocação de “uma cobra no quarto” do filho, para além de muitas outras irregularidades, entre as quais saídas noturnas e chegadas ao CAR fora de horas sem qualquer controlo.

As denúncias foram feitas a 2 de julho do ano passado e, em setembro, aquela comissão remeteu a exposição ao inspetor-geral da Educação e Ciência, com conhecimento dado a uma representante da Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto.

Avanço

O pai do menor, citado pelo JN, confirmou “ter formalizado queixa” e, inclusivamente, revelou: “Efetivamente, estivemos em Lisboa em novembro onde fomos ouvidos por um inspetor da Inspeção Geral Da Educação e Ciência”.

Ainda segundo o pai do menor, em dezembro ele e o filho prestaram declarações num posto da GNR no concelho de Oliveira de Azeméis. “A situação reporta-se ao Ministério Público, sendo que me foi referido que todos os intervenientes iriam nas suas localidades serem chamados”, fez ainda notar este pai ao JN.

Entre os “intervenientes” a serem chamados a depor estarão o treinador de então e responsáveis pelo CAR, entre os quais Vítor Pataco, o atual vice-presidente do IPDJ.

 “Aguardamos, naturalmente, a ação das entidades competentes e da justiça”, concluiu  ao JN.

Defesa

Na sequência da notícia avançada esta quinta-feira e que fez manchete no JN, o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) divulgou ao final da tarde um comunicado oficial no qual dá a sua versão.

Neste comunicado, afirma-se, nomeadamente que “no final da época desportiva de 2015/2016, três atletas da modalidade de Ténis, à data com 16 anos, não voltaram a ser admitidos no Centro de Alto Rendimento Jamor (CAR Jamor) por terem protagonizado comportamentos cívicos desadequados, ao longo da época desportiva, designadamente, por terem espalhado comida pelo chão, paredes e teto da área social da residência e por incumprimento de horários definidos”.
Mais adiante, o IPDJ assegura que”foram estas razões e não qualquer outra, nomeadamente relacionada com alegados abusos sexuais ocorridos entre aqueles atletas - situação só foi do conhecimento dos dirigentes do IPDJ aquando da notificação da abertura de um processo de inquérito da Inspeção Geral da Educação e Ciência (IGEC) - que levou a que os atletas não fossem readmitidos no CAR Jamor”.
Antes de afirmar aguardar “as conclusões do processo”, o IPDJ garante que “quando o IPDJ tomou conhecimento da queixa, por parte da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens à IGEC,  os mesmos atletas já não residiam no CAR Jamor”.
Finalmente, O IPDJ sublinha o “prestígio do CAR Jamor, que tem acolhido, nos últimos 20 anos, grande parte dos melhores atletas portugueses, incluindo medalhados em Jogos Olímpicos, em campeonatos da Europa e em campeonatos do mundo. Este Instituto trabalha diariamente com as federações desportivas no sentido de proporcionar o bem estar e segurança dos atletas”.














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